
Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação em saúde mental e relações familiares, costuma lembrar que a criança raramente diz com palavras aquilo que sente por dentro. Quando algo a incomoda, ela tende a expressar pelo corpo, pelo comportamento e pelo modo como se relaciona com os adultos ao redor. Entender essa linguagem indireta é um dos pontos de partida para que a família perceba, cedo, que existe um sofrimento pedindo espaço para ser cuidado.
Reações intensas, choros que parecem desproporcionais e momentos de fechamento não são, em si, sinais de mau comportamento. Eles funcionam como pistas. A proposta deste texto é olhar para esses recados de uma forma acolhedora, sem rótulos e sem julgamentos, ajudando quem cuida a se aproximar em vez de se afastar.
Comportamentos que falam quando faltam palavras
Crianças pequenas ainda não dispõem de um vocabulário emocional desenvolvido. Por isso, sentimentos como medo, insegurança e angústia aparecem traduzidos em gestos. Uma criança que volta a fazer xixi na cama, que passa a se recusar a dormir sozinha ou que apresenta mudanças bruscas de humor pode estar tentando dizer algo que ainda não consegue nomear. Taiza Tosatt Eleoterio observa que esses movimentos merecem atenção justamente porque revelam um pedido de cuidado.
O olhar atento dos adultos faz diferença. Em vez de reprimir a reação, vale perguntar o que está por trás dela. A criança que percebe que seu mundo interno tem valor para os pais aprende, aos poucos, que pode contar com eles. Esse vínculo de confiança é uma base importante para o desenvolvimento emocional saudável ao longo da vida.
O silêncio também é uma forma de expressão
Nem todo sofrimento aparece de maneira ruidosa. Algumas crianças reagem ao desconforto se retraindo, ficando mais quietas do que o habitual e evitando contato. Esse recuo costuma ser interpretado como timidez ou bom comportamento, quando, em certos casos, sinaliza que algo pesa demais. Por se manifestar de forma discreta, o silêncio pode demorar mais a ser percebido pelos adultos.
A leitura psicanalítica ajuda a compreender que aquilo que não é dito também comunica. Quando uma criança deixa de brincar como antes, perde o interesse por atividades que gostava ou se mostra distante, vale acolher esse estado sem pressa de corrigir. Criar um ambiente seguro, no qual ela sinta que pode se abrir no seu próprio tempo, abre caminho para que a expressão volte a fluir.
Por que o ambiente ao redor importa tanto?
O desenvolvimento emocional de uma criança não acontece no vazio. Ele é atravessado pelas relações que ela observa e vive dentro de casa. Um ambiente marcado por tensão, gritos frequentes ou clima de hostilidade tende a deixar marcas no modo como a criança aprende a lidar com seus próprios sentimentos. Ela absorve muito mais do que os adultos imaginam, mesmo quando ninguém fala diretamente com ela.
Por isso, cuidar do clima familiar é uma forma de cuidar da criança. Taiza Tosatt Eleoterio destaca que pequenas mudanças na maneira como os adultos se comunicam entre si já podem aliviar o peso que recai sobre os mais novos. Um lar onde o afeto circula com naturalidade oferece à criança a sensação de segurança necessária para crescer com mais equilíbrio.
Quando buscar acompanhamento?
Reconhecer os sinais é importante, mas não significa que a família precise carregar tudo sozinha. Quando o sofrimento da criança persiste, se intensifica ou começa a afetar a rotina, a escola e os vínculos, vale considerar o acompanhamento de um profissional. A escuta especializada ajuda a compreender o que está em jogo e a oferecer um espaço próprio para a criança elaborar o que sente.
Taiza Tosatt Eleoterio pontua que a psicanálise, nesse contexto, não busca diagnósticos rápidos nem fórmulas prontas. Ela propõe um cuidado atento ao tempo de cada criança e de cada família. Acolher os recados que vêm pelo comportamento e pelo silêncio é o primeiro passo para que esses recados deixem de ser solitários e passem a ser compartilhados com quem pode ajudar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez









