
Segundo Alfredo Moreira Filho, empresário e fundador do Grupo Valore+, que viveu em Tucumã antes de se estabelecer em Brasília, o sudeste paraense é um retrato dos desafios e das oportunidades da fronteira agropecuária amazônica. Na região de Tucumã e São Félix do Xingu, a paisagem combina pastagens extensas, áreas de floresta e cidades que cresceram rapidamente nas últimas décadas.
A região abriga o maior rebanho bovino municipal do Brasil e, ao mesmo tempo, enfrenta pressão para reduzir o desmatamento e adotar práticas mais sustentáveis. Entenda, a seguir, como essa economia se formou, quais são seus números e de que forma produtores buscam aumentar a produtividade sem avançar sobre a mata.
Uma região formada por frentes de ocupação
O sudeste do Pará foi ocupado de forma acelerada a partir da segunda metade do século passado. A economia, que antes se baseava no extrativismo da castanha e em pequenas comunidades ribeirinhas, passou a receber estradas, projetos de colonização, garimpos e grandes fazendas agropecuárias.
Tucumã nasceu justamente de um desses projetos, planejado inicialmente por uma empresa privada para receber colonos vindos do Sul do país. Já São Félix do Xingu, que em suas origens era uma pequena vila à beira do rio, transformou-se em um dos maiores municípios produtores do Brasil. Conforme explica Alfredo Moreira, a velocidade dessa ocupação ajuda a entender tanto o dinamismo econômico quanto os problemas ambientais que a região passou a enfrentar.
O peso da pecuária
A pecuária é a principal atividade econômica da região. O Pará reúne cerca de 25 milhões de cabeças de gado, e São Félix do Xingu lidera o ranking nacional entre os municípios, com mais de 2,5 milhões de animais, segundo levantamentos do IBGE. Tucumã, município vizinho, abriga estruturas importantes da cadeia, como frigoríficos que processam o gado criado na região.
Além da carne, a economia local se apoia no comércio, nos serviços, na mineração e em lavouras como mandioca, soja e cacau, cultura em que o Pará se tornou o maior produtor nacional. Durante anos, porém, a expansão das pastagens esteve associada ao desmatamento, o que colocou municípios da região entre os que mais perderam floresta na Amazônia. Como pontua Alfredo Moreira Filho, essa contradição entre crescimento e preservação marcou a história recente do sudeste paraense.
Produzir mais na mesma área
Nos últimos anos, parte dos produtores passou a investir na intensificação da pecuária, com o objetivo de aumentar a produção sem abrir novas áreas. Técnicas como o rodízio de pastagens, a recuperação do solo, a melhoria da genética do rebanho e a suplementação alimentar permitem que o gado engorde mais rápido e que o pasto tenha tempo de se regenerar.
Projetos desenvolvidos em parceria com organizações ambientais e entidades do setor mostram que é possível elevar a produtividade e a renda com práticas mais sustentáveis. Em um dos casos relatados na região, frigoríficos chegaram a operar abaixo da capacidade por falta de fornecedores que atendessem aos critérios de produção responsável, o que evidencia a demanda por gado com origem comprovada. De acordo com Alfredo Moreira, quem se adapta a essas exigências tende a encontrar mercados mais estáveis e melhor remunerados.
Rastreabilidade e o futuro da região
A rastreabilidade do rebanho ganhou importância diante das exigências de compradores nacionais e internacionais, que cobram garantias de que a carne não vem de áreas desmatadas ilegalmente. O controle sanitário feito pela agência de defesa agropecuária do estado, os cadastros ambientais das propriedades e sistemas de monitoramento por satélite fazem parte desse esforço.
Os desafios ainda são grandes, especialmente para pequenos produtores com menos acesso à assistência técnica e crédito. Ao mesmo tempo, a recuperação de pastagens degradadas, a diversificação com culturas como o cacau em sistemas agroflorestais e a organização dos produtores abrem caminhos para um modelo mais equilibrado. Sob a ótica de Alfredo Moreira Filho, o futuro do sudeste do Pará depende da capacidade de transformar a força produtiva da região em desenvolvimento duradouro, com a floresta como aliada.









