
Felipe Rassi, especialista jurídico, informa que existe uma pressão silenciosa em toda negociação de portfólio de créditos estressados. O vendedor tem interesse em fechar rápido. O comprador tem interesse em não perder o deal para um concorrente. E, no meio dessa tensão, etapas críticas de análise acabam sendo comprimidas ou puladas com a promessa mental de que serão revisadas depois do fechamento.
O problema é que, quando essa lógica prevalece, o depois do fechamento raramente corrige o que o antes deixou sem resposta. Os problemas identificados após a aquisição já são, por definição, problemas exclusivos do comprador.
O que uma due diligence de NPL precisa cobrir obrigatoriamente?
A análise começa pela verificação da cadeia documental de cada crédito. Isso porque contratos originais, aditivos, instrumentos de garantia e histórico de cobrança precisam estar completos e consistentes. Afinal, portfólios com documentação fragmentada ou com lacunas nos instrumentos de garantia apresentam risco jurídico que impacta diretamente a capacidade de execução.
A etapa seguinte é a análise do histórico processual. Para créditos que já estão em fase judicial, é preciso verificar o estágio de cada processo, as decisões já proferidas, os recursos pendentes e a estimativa de tempo até uma decisão definitiva. Diante disso, esse mapeamento é o que transforma o prazo de recuperação de uma estimativa genérica em uma projeção com base real.
Como avaliar a qualidade das garantias em escala?
Em portfólios com centenas ou milhares de créditos, a análise individual de cada garantia é inviável dentro dos prazos normais de uma due diligence. A solução utilizada pelos fundos mais experientes é a amostragem estratificada: selecionar amostras representativas dos diferentes perfis de garantia presentes no portfólio e aprofundar a análise nessas amostras para inferir a qualidade do conjunto.

Felipe Rassi
Assim como aponta Felipe Rassi, a definição dos estratos de amostragem é onde está o maior risco de erro. Uma amostra que não representa adequadamente os diferentes perfis de risco do portfólio pode levar a conclusões otimistas que não se sustentam quando a recuperação avança sobre os créditos não amostrados.
Passivos ocultos: o risco que não aparece no portfólio, mas vem junto com ele
Créditos originados em determinados contextos carregam riscos que vão além do inadimplemento do devedor. Operações com potencial de contestação por práticas abusivas, créditos vinculados a devedores com histórico de litigância elevada e portfólios com concentração em setores sob investigação regulatória são exemplos de situações em que o risco não está no título em si, mas no contexto em que foi gerado.
Na visão do especialista jurídico, Felipe Rassi, a identificação desses passivos ocultos exige uma camada de análise que vai além da verificação documental. Isso porque o diagnóstico eficaz requer leitura setorial, conhecimento do histórico do cedente e, em alguns casos, consulta a bases de dados de litígios e reclamações regulatórias.
A due diligence como investimento, não como custo
Compradores que tratam a due diligence como custo a ser minimizado tendem a encontrar, na fase de recuperação, problemas cujo custo de resolução supera em muito o que teria sido necessário investir na análise prévia.
Em suma, Felipe Rassi conclui que o retorno de uma due diligence bem feita não aparece como linha de receita em nenhum relatório. Aparece na ausência de surpresas negativas após o fechamento, na aderência entre as projeções de recuperação e os resultados reais e na confiança que a gestora constrói junto aos seus investidores ao longo do tempo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez









